01Algumas bibliotecas como a de Apolodoro conservam uma parte das mitos da Antigüidade Clássica, outras como a de Fótius algo da herança do mundo antigo e bizantino; nos textos de Platão temos ainda a ordem do texto estabelecida pelos eruditos de Alexandria destruída. Esta não recorre nem a pergaminhos, nem ao papel – mas os livros existem, foram lidos e é um fragmento destas leituras que é aqui registrado. Mas não apenas leituras, do que foi visto e das imagens que vou converter em texto.

Sem galerias, sem círculos, sem hexágonos, ainda que matematicamente determinada, o número de objetos de que se compõem não é infinito, embora as combinações de que resulta e as que torna possíveis exigem dizer que estas relações são algo mais que finitas. Mas para a leitura ela é finita e convenhamos relativamente pequena. Não tem altura, não tem profundidade, não é uma biblioteca normal. Não tem galerias, não tem gabinetes, pequenos ou grandes e ignora a forma espiral para as escadas e mesmo o labirinto. Desconhece a forma esférica e também o jogo dos espelhos, sua imagem não se reflete em lugar algum. Não foi fotografada, filmada, ninguém a vê fisicamente disposta. Não pode ser visitada por tochas com que a noite se podia ver certas estátuas ou quadros – como nos descreve Praz em seu panópticon romano – não tem lâmpadas fosforescentes, de mercúrio nem imagens em telas de plasma.

Alguns livros que tornaram possível esta biblioteca foram o resultado de viagens – certos livros sobre Joyce , que não necessitaram do exílio- congressos, encontros; a peregrinação fez-se no mais das vezes através de catálogos infindos, mensais, semanais, brasileiros, franceses, ingleses, italianos, espanhóis, alemães, muitos manuscritos, nunca obtidos, escritos com letra inteligível e ininteligível. Preparei-me para liberar-me deles, da escrita das listas, repetidas e refeitas muitas vezes, e da acumulação dos textos invadindo salas, corredores, quartos, varandas. Agora no entanto não estão mais num ponto fixo do espaço, desligaram-se da matéria física a que se atinham.

Poder-se-ia pensar segundo um certo idealismo que esta biblioteca não existe, que é um puro produto mental e quiçá só exista na cabeça de quem a pensou. Não depende de nenhum pentágono ou triângulo, e não é o livro da natureza pensado por Deus. Mas, quem sabe talvez o seja como o todo simbólico pensado pelo Deus de Spinoza. A forma desta biblioteca não repete a forma do mundo que Nicolau de Cusa figurou – não tem centro nem circunferência e nada deve também a forma esférica. De qualquer maneira como a natureza a Biblioteca é a realização das mais simples idéias pensáveis. E eu estou convencido de que ela mostra que podemos descobrir, através apenas de puras construções matemáticas, os conceitos e as conexões legais que fornecem a chave escrita de todos os fenômenos. A experiência no mundo pode aparentemente sugerir os instrumentos matemáticos apropriados, ainda que eles não possam dela ser deduzidos. Aqui para as leis da Biblioteca como na física o princípio criativo reside na matemática e assim o pensamento puro pode apreender o real, – como pensava Einstein, e isto não é apenas um sonho dos antigos.

Os freqüentadores da Biblioteca talvez possam pensar que a partir da origem dos livros se chegue pela lógica do símbolo a pensar o começo do mundo e da natureza; esta tentativa já foi feita muitas vezes; pela escrita pode-se pelo menos pensar a origem da fala. Não há correspondência entre estes livros e o mundo; a direção das letras ou dos números da esquerda para a direita ou em ordem inversa nada tem a ver com a ordem das coisas.

Não é indefinida a Biblioteca, sua fronteira não é o vazio, nem curvo ou plano é seu espaço e não tem portanto estantes; os livros não estão dispostos de forma contínua, não tem ordem fixa nem tamanho estabelecido; nada foi fixado sobre a cor e a forma das letras. Elas existem por algum tempo em algo que ainda se chama página – mas isto é agora apenas uma metáfora. As conexões dissolveram toda continuidade de sua escrita. Uma destruição geral da antiga Biblioteca foi mais radical do que o incêndio de Alexandria celebrado na Renascença como uma revolução cultural; o resultado da mudança foi mais sério do que a destruição dos livros por Ti Huang Ti ; e no entanto ela existe apesar da explosão do computador sonhada por Scarpetta ou pelo HAL revoltado de Kubrick.

Não tentaremos discutir se a Biblioteca possui uma forma dedutiva. Ela existe num presente aleatório e conjuntural. Resultado de restos, fragmentos de batalhas ganhas e/ou perdidas, muito do que aí deveria estar jamais poderá ser lido como as obras de Demócrito e uma boa parte da obra de Aristóteles ou Sófocles. Se nela se fala da cultura antiga – veja-se as peças do Museu Capitolino – como neste, quase tudo é conjectura, senão pura invenção.

O homem, produtor de símbolos, sujeito de uma cadeia por eles composta é habitado hoje esta nova forma que dispensa o antigo Bibliotecário e o antigo Livro. As referências ao barro para seu registro ou para sua criação não tem mais sentido algum. A simetria da nova Biblioteca é feita de uma estética puramente matêmica – nem pontual, nem delicada, nem negra, nem branca. Ela dissolve a relação suposta entre o Divino e o Humano.

Os signos, símbolos, sinais, significantes admitem uma variação que vai da escrita das línguas indo-europeias, algo em torno de trinta, a muitos outros de línguas ideogramáticas, mas por fim todas traduzíveis a partir da relação elementar descoberta, construída ou inventada por lógicos e matemáticos. Assim se um grande número de textos, pelas margens, pelos índices pela variação dos símbolos aparecia caótica, por esta redução aparecem simples e quase triviais. Contudo predominam certas letras M, A, T, o que não constitui nem cacofonia, nem labirinto nem uma incoerência. Mas uma região de repetições cuja lógica também pode e é objeto de cálculo, de previsão, de descrição.

A biblioteca não é produto de um sonho, embora a sua lógica, sua interpretação esteja escrita como um sonho – com metáforas, com anáforas, muito distante no entanto dos métodos dos oniromantes e da onirocrítica porque não aspira ao mistério, mas a clareza do dia.

Não temos na biblioteca uma referência explícita a um número explícito de símbolos- eles não se referem mais a qualquer ortografia na sua estrutura fundamental – são uma oposição simples, afônica mesmo no que se refere a letras – e de fato limitam-se a oposição 0/1 em composições inumeráveis. O campo da biblioteca pensado numa teoria particular primeiramente, quantificado, objeto de polêmica, de antecipações, foi depois refundido e generalizado. Objeto de tratamento lógico e matemático, foi associado a um dispositivo físico, porém irredutível a qualquer localização geo-política, excentrado, descentrado.

Com ele se abandonou a pretensão de pensar as unidades componentes, que a tradição que ela desfazia, incendiava, explodia e que se chamava livros. Estes agora eram uma metáfora – metáfora do mundo, metáfora da poesia, da ciência. Com esta redução simples, confusões, impossibilidades, labirintos, cacofonias dissolveram-se numa lógica mais simples que para além das imagens; agora podiam também dar conta dos deuses e de todas as coisas.

Trata-se de uma escrita repetida, que não pretende dar uma forma única e fixa ao livro. Mas algumas tentativas foram feitas e a mais séria foi a da máquina. Com efeito, já há algum tempo – séculos – pensou-se que a biblioteca era uma máquina, capaz de decifrar línguas perdidas, reconstruir a língua única desaparecida, reunir todo o saber num único texto; esta unificação era vista por muitos como uma ameaça, novo controle geral, gerência de tudo e de todos, algo total. Mas a biblioteca é incompleta, faltam-lhe textos, páginas, as conexões são definitivamente não-todas. Ela pode integrar dialetos, línguas classificadas de povos sofisticados, supostos primitivos, registrar música. Muito do que era estranho, esotérico ganha uma configuração nova , quando já não podíamos entendê-los, restos perdidos nas pirâmides, nos zigurats, mas principalmente nas velhas bibliotecas. As línguas na nova biblioteca tendem a sincronia e esta sincronização parece tomar a forma de um apocalipse. Muitos sentidos, páginas, tradições, dialetos passam a existir um instante, aparecem, desaparecem. Esta sincronia porém existe num quadro de múltiplas decalagens e marca um novo tempo em que persistem múltiplas diferenças, que se reafirmam, combatem entre si mas que ganham novo sentido na escrita da nova Biblioteca.

Produto do l o g o s , geralmente traduzido como razão, juízo, conceito, definição, fundamento, ou relação, a Biblioteca é um produto do discurso, não apenas do que deixa ver, mesmo entendida como a partir da coisa mesma a respeito da qual o discurso fala. Não como síntese de representações, manipulação de ocorrências psíquicas. Mas ainda que o algoritmo da nova Biblioteca possa ser verdadeiro ou falso, ele representa uma nova experiência para o Dasein, e não apenas no sentido de Heidegger, que poderia tomá-lo somente como mais uma manifestação da técnica.

A nova charactheristica universalis, não destruiu efetivamente os dialetos, línguas cuja escrita foi reconstruída por antropólogos, línguas inumeráveis, algumas mortas cuja vocalização é arbitrária, integrou-as todas; ainda que muitas permaneçam rigorosamente inacessíveis para o grande número, verdadeiros criptogramas, mas existentes no grande circuito.Decifradores põe-se em ação para integrar estas formas no arquivo das línguas com um cânone supostamente mais importante. Não há número igual nem equivalência dentro do universo destes textos. Nem o espaço. nem o ponto, nem a vírgula os unificam e muito menos as letras. Aí está o espaço da diferença absoluta. E não há arcanjos ou história do futuro que os possa reduzir. Apenas o matema os engloba e ele não é um mitema, não compreende a história de Tácito, os evangelhos, verdadeiros ou apócrifos e nem o Mahabarata.

Ao que parece saímos da exiguidade da informação para a pletora, com soluções possíveis para muitos senão todos os problemas dos sujeitos e do mundo. O tempo das profecias ao que parece chegou, nova idade de ouro, descrita na quarta écloga, a Pólion, com o Deus navegando numa mandorla – esta substitui a página escrita, depois da página branca elogiada por Mallarmé. Não se acabou a era das maldições, dos horóscopos, porque os bruxos também se instalam no novo esquema, e continuam a traficar com o futuro.

Com isto poderíamos pensar que se deveria realizar uma operação para purificar a nova biblioteca. E não faltam projetos de muitos governos, comitês, proprietários de obras e de imagens que desejam fazê-lo . batalhões de juristas, e outros agentes, invasores, senhores de alguns códigos associados a processadores e programas aí estão para identificar e estabelecer o reino do mesmo, do idêntico, do branco sem escrita. Milhões de páginas podem ser destruídas, ameaçadas e muitíssimas outras nunca circularem. E há o reino das cópias, do envio de inumeráveis cópias para muitíssimos do mesmo texto, mil milhões de vezes repetido. Há os textos únicos, insubstituíveis, sempre novos, há os perfeitos, os mais-que-perfeitos e os que estão sendo aperfeiçoados, sempre rescritos, inumeráveis. A ameaça de limpeza não creio que seja exagerada, a menos que se pense como os antigos inquisidores que há textos em excesso e que as perdas por isto não tem importância.

Se o Homem do Livro, o redator, o leitor existiu e persiste, não há a fórmula final de toda a biblioteca, ou do livro dos livros, o Ur-livro, mesmo que alguns pensem que ele se chama Finnegans Wake, ou que ele se localiza em Babel. Não há porque buscá-lo, nem perder anos ou dias com isto.

A Biblioteca hoje não abriga mais impiedades ; isto não se pode mais dizer de Avicena, Descartes ou Voltaire ou das obras judaicas – o próprio guardião da Biblioteca Vaticana já pediu desculpas quanto a alguns destes erros. E creio suas declarações são sinceras.

A biblioteca não inclui todas as variações ortográficas, sintáticas ou semânticas. Não foi concebida por um Deus delirante. Mesmo Dioniso aparece razoável a luz da metáfora paterna. Tautológica ou insignificante, plena de sentido, musical e analógica, polifônica e harmônica, a Biblioteca está para além das epidemias e das discórdias, rebeliões, deslocamentos de população, catástrofes. A biblioteca está em constante expansão, e há novas páginas surgindo em todas as direções, por todas as faces de sua múltipla geometria. Em emissões no ar, em cabos, em satélites, ela atravessa e fulgura no espaço ainda que invisível. Trans-humana sua presença é a de uma outra atmosfera, de uma logosfera, de uma noosfera ou do que Lacan chamou aletosfera.A Biblioteca como o mundo está constelada de problemas. Seja para onde olhemos nela surge algum problema novo quer diga respeito a nossa atividade profissional, a nossa vida amorosa, econômica ou técnica. Alguns destes problemas são obsedantes e recusam-se praticamente a nos deixar tranqüilos. Sua presença para nós pode estender-se durante nossos dias e mesmo quase torturar as nossas noites. Feliz solução de um problema que aumenta a riqueza de nosso saber! Assim foi para a constante que Planck chamou desesperada. Porém alguns bibliotecários ou guardiães da biblioteca desejam não a solução dos problemas mas a guarda das respostas já encontradas. Desenvolveram um enorme esforço elaborando regras, criando tribunais, exames, inquisições, expedições examinando textos, questionando autores, proibindo edições, censurando escritores, parágrafos, interpretações. Assim a origem e o significado da vida, o desdobramento temporal do existente já tiveram respostas fixas. Agora elas estão abertas à construção, e só a atividade de construir perguntas e respostas merece o nome de ciência.

A cadeia dos signos possíveis na biblioteca abole toda essência, sua permutação relativiza a suposta substância da língua básica, de todas as línguas, supõe o conjunto dos signos, o tesouro de todos eles, o que fixa seu sentido. Assim vai-se buscando da página 1 a página z, da página x a página µ e não há fim possível, aparente e cada um e todos os leitores, escritores de páginas resumem-se a presença entre estes intervalos numa grande tessitura, de textos e programas. E assim circulando vai a palavra, o signo, le mot, o mote.

Na biblioteca há coletâneas de correspondência de homens célebres, índex, listas de assuntos, cartas e papéis públicos que se encontram em chancelarias, em Cortes, vilas e cidades. A organização da nova biblioteca, seu método tomada em toda sua extensão, é algo inteiramente desconhecido que só se praticou até hoje nas matemáticas. E mesmo nestas de forma imperfeita; ela diz respeito aos caracteres que foram postos no lugar das coisas. O novo método, a característica deve ser formal para aplicar-se a qualquer conteúdo, e universal não apenas por seu emprego em todas as ciências, mas porque permitirá estimar os graus da certeza. Raciocínios em física, biologia, moral, direito não são tão demonstrativos como os da aritmética ou análise. Poder-se-á estimar os graus de probabilidade, e por as vantagens e desvantagens frente a frente e raciocinar ao menos seguramente ex-datis.. Encontrar-se-á caracteres e signos para exprimir todos os pensamentos, tão clara e exatamente como a aritmética expressa os números, ou que a álgebra ou a analise matemática que exprime as linhas e pode-se fazer em todas as matérias sujeitas ao raciocínio tudo o que se pode fazer em aritmética e em geometria. Para a invenção e o juízo tem-se um instrumento formidável. O verdadeiro método nos fornece um fio de Ariadne, quer dizer um certo meio sensível e para conduzir o espírito como fazem as linhas na geometria e as formas das operações que se prescreve em aritmética .O algoritmo infinitesimal é aqui um ponto de certeza e o primeiro a antecipar a mathesis da nova biblioteca.

Os que viajam na nova Biblioteca não precisam temer Eolo, nem Circe, Cila ou Caríbides, nem os Lestrigões ou a faca de Apolo, a fúria de Júpiter ou de Netuno. Podem viajar longamente e seu percurso extenso, rico em achados e aventuras, descobertas e novos saberes. É preciso que a visada permaneça alta e os viajantes não se devem encantar nem pelo limbo nem o ruído que pode acompanhar a viagem ou as sombras que vem dos círculos inferiores. Mas eles só atingem os viajantes se estes já os transportam. Entrarás assim pela primeira vez nas Terras Cimerianas, verás Tirésias e descobrirás muitos nichos, ilhas, planetas novos nos sítios de seu novo caminho. Teu percurso poderá ir de Oriente a Ocidente e muitos objetos, cores, formas, luzes e mesmo as diferentes modalidades de vinhos, especiarias, aparelhos, programas e perfumes estarão ao teu alcance. Sábios antigos e modernos estarão a teu alcance para que com ele te instruas.05

O ponto final de teu percurso, conserve-o como alvo, mas não queira aproximar-te logo dele, difira, e bastante teu ponto de chegada, não para perder tempo, mas para tornar teus dias mais densos, para tornar tuas noites mais vivas e para que possas ver depois de um longo caminho o quanto ganhaste e com ele, e também como aprendeste a perder.

Este porto de abrigo, este ponto de arrimo, nova Tróia, nova Ítaca, nova Roma, torna-te possível a viagem e é ele que te põe em marcha. “Allons, appareillons, au fond de l’inconnu pour trouver du nouveau!”