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Manoel Barros da Motta

Claudio Maia Porto

Nas formações sociais modernas, o poder se manifesta nas esferas econômica, política, militar, científica, tecnológica e ideológica. Esta última era vista pelo pensador geopolítico Golbery do Couto e Silva como sendo a esfera psicossocial.

A respeito do poder militar brasileiro circulam perspectivas fantasiosas sobre a importância internacional de nossa marinha à época do Império. No século XX, o Brasil tornou-se um estado importante do ponto de vista econômico, chegando a ocupar na Era Lula a posição de sétima economia em tamanho do PIB em dólares. Até a década de 1990, a economia brasileira era maior do que a chinesa ( segundo dados do World Bank, acessíveis em … ). Em 1990, os valores eram de 462,0 contra 354,6, em bilhões de dólares; em 1991, 407,3 contra 376,6. Já em 1992 a China ultrapassa o Brasil, com PIB de 418,2 bilhões de dólares contra 390,6 do Brasil. No início da década de 2000, mais precisamente em 2001, a China já havia dado um salto significativo, passando para a 6ª posição no ranking das economias, com PIB de 1.324,8 bilhões de dólares, enquanto o Brasil ficava na 11ª posição, com 552,3 bilhões. Já em 2010, a China ocupava a 2ª posição, com 5.878,6 bilhões de dólares, e o Brasil, a 7ª posição, com 2.087,8 bilhões de dólares. Para o ano de 2016, os dados do FMI são: China em 2ª, com 14,0 trilhões de dólares, enquanto o Brasil passou a ocupar a 9ª posição, com PIB de 2.140 bilhões.

No plano científico, o Brasil, durante os governos militares desenvolveu nas Universidades públicas o sistema de pós-graduação, sobretudo os doutorados. Há que ressaltar também que a Fundação Ford exerceu forte influência para que o modelo acadêmico norte-americano servisse de paradigma na implantação de cursos de ciências humanas e sociais que, em algumas áreas, não estavam desenvolvidas no Brasil. O estado Norte-Americano, através Fundação Ford, criou programas de atuação para dirigir a formação das elites político-ideológicas segundo o padrão das universidades americanas. No Brasil isso se materializou no IUPERJ, associado às Universidades Cândido Mendes, com forte apoio do próprio Cândido Mendes e de Wanderley Guilherme dos Santos. Esse instituto lançou a revista Dados, marcada por um ponto de vista acentuadamente empirista. Em São Paulo houve a criação do CEBRAP, através de FHC, cassado pelo AI-5 pelo ex-Reitor Gama e Silva. Fernando Henrique se tornara conhecido com sua tese sobre a formação do capitalismo no Brasil meridional, orientada por Florestan Fernandes, introduzindo a temática webero-marxista na análise da formação histórica nacional.

Durante a Guerra Fria os Estados Unidos praticaram uma política de contenção, cujo principal aspecto não era a defesa das liberdades. Essa política era implementada inclusive com a realização de intervenções militares, frequentes na América Central e que levou o país à Guerra do Vietnã, assim como a promoção de golpes de estado, como no Brasil, em 1964, e no Chile, em 1973. O movimento dos não-alinhados, a emergência internacional da China e, mesmo antes, a independência das ex-colônias colonizados da África e da Ásia, assim como o impulso antiocidental de vertentes da civilização islâmica isolaram os Estados Unidos no fim da década de 1960. O resultado foi, inicialmente, a política de Kissinger de aproximação com Pequim e depois, na Era Carter, a ascensão de uma nova política, que, sob a bandeira dos direitos humanos, pôs em questão o mundo soviético e muitas ditaduras do chamado Terceiro Mundo. A defesa das liberdades das mulheres, de minorias sexuais, de direitos da subjetividade e de novas identificações subjetivas era um movimento que, englobando questões como a da loucura, da penalidade e da sexualidade, as mutações da luta da esquerda na Europa e no Mundo, havia introduzido de forma muito significativa. Essas questões também contribuíram para desestabilizar a antiga URSS. Contudo, embora se distinguissem do humanismo tradicional, acabaram sendo vertidas nas políticas dos chamados direitos humanos, que estavam sob hegemonia norte-americana. Eis como nos apresentam o tema Sérgio Adorno e Nancy Cardia:

O principal objetivo do programa Direitos Humanos da Fundação é promover o acesso à justiça e estender a todos os membros da sociedade toda a gama de direitos. Procura alcançar esse objetivo através da promoção e aplicação de defesas dos direitos humanos, com um enfoque especial na eliminação das violações dos direitos sofridas pelos grupos mais vulneráveis. A partir do início dos anos de 1990, escolheu privilegiar particularmente os direitos da mulher, do negro e dos grupos indígenas, sem, porém, desviar-se do objetivo mais amplo, que era “estender a todos os brasileiros o acesso à justiça e à cidadania democrática” (Telles, 2000). Formulados no início dessa década, esses objetivos são atualmente perseguidos por meio de duas iniciativas ou linhas de trabalho: a) a criação de uma infraestrutura de direitos humanos, entendendo-se por isso a dotação de meios e recursos ao País para ampliar o acesso à informação, ao conhecimento e às leis de promoção e/ou proteção dos direitos humanos; b) o combate à discriminação de raça e de gênero por meio do desenvolvimento de estratégias de redução das desigualdades e de fortalecimento da igualdade perante a lei (Dora, 2002).” ( ADORNO E CARDIA, 2002 )

A Questão Nuclear

Ao final da década de 1930, o uso da energia nuclear para fins industriais e militares já era vislumbrado. Naquele momento, o estudo da fissão nuclear já estava avançado. Em 1939 havia mais de 100 artigos publicados sobre o tema, somadas as publicações de Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos ( Quantum Generations ). Em maio daquele ano, Norman Feather concluía “a possibilidade de um processo acumulativo de desintegração exotérmica tem de ser considerado.” ( H. Gretzer e David Anderson, “The Discovery of Nuclear Fisson”, Van Nostrand Reinhold, 1971, p.79, apud Quantum Generations ). Uma resenha de Siegfried Flugge chamada “Pode o conteúdo da energia do núcleo atômico tornar-se tecnicamente utilizável” respondia positivamente e declarava ser possível a construção de uma máquina atômica. A energia atômico não era uma realidade, mas não estava fora do horizonte. O conhecimento teórico ainda era incompleto. Contudo um paper de Bohr e Wheeler, publicada em 1º de setembro de 1939, já lançava os fundamentos para uma teoria semi-empírica para o uso da energia nuclear. A possibilidade de uma bomba de urânio não era explicitamente discutida nas primeiras semanas de 1939, mas os físico já haviam concluído que a pesquisa sobre a fissão levaria a uma bomba e que, talvez, a Alemanha assumisse a dianteira nesse uso. Muitos dos físicos que estudavam a fissõ tinham vindo da Europa Cnetral como imigrantes e estavam preocupados com a situação, entre eles Leo Szilard, refugiado húngaro que havia trabalhado na Grâ-Bretanha e depois nos Estados Unidos. Desde 1934 ele já julgava concebível uma reação em cadeia que levasse a uma explosão. No entanto, ele pensava em utilizar Berílio e não Urânio.

Nessa questão do domínio da tecnologia nuclear, o caso francês é emblemático, pela indicação dos caminhos singulares que tomam poder e saber, não apenas nas atividades científicas, mas na sociedade. De fato, a descoberta pela equipe de Fréderick Joliot, do Collège de France, da possibilidade de desencadeamento de uma reação nuclear em cadeia a partir de uma massa de urânio, embrião de uma futura bomba nuclear, assinala um marco nessas relações entre conhecimento e poder. Em 1939, Joliot e sua equipe patentearam secretamente esse projeto de arma e esboçaram o projeto de um reator nuclear, persuadindo o governo e a iniciativa privada a dar apoio a essa pesquisa ( Weartm Spencer R. “Scientists in power”m Harvard University Press, Massachussets, 1979 ). No ano seguinte, quando já estavam construindo o reator, ocorreu a invasão alemã. Contudo, nem mesmo esse colapso político-militar foi capaz de interromper os estudos nucleares franceses, graças principalmente a Hans Halban e Lew Kowarski, que fugiram para a Grã-Bretanha e de lá orientaram os rumos da pesquisa americana e britânica na área. Como resultado disso, ao fim da II Guerra, Joliot e seus colaboradores criaram um programa nuclear que foi capaz de tornar a França uma potência nuclear.

Consultado por Szilard em face das descobertas de Otto Hahn, Enrico Fermi, líder do grupo de pesquisas em Columbia na área de Física Nuclear, permanecia relativamente descrente da viabilidade de reação em cadeia para liberação de nêutrons em proporções destrutivas. No entanto, em janeiro de 1939 Szilard teve acesso, aparentemente de maneira acidental, ao conteúdo de uma correspondência entre Joliot e o físico George Placzek, também de Columbia, sobre os experimentos secretos de Joliot. Convencido de que o grupo de Joliot estava pesquisando sobre a fissão nuclear, Szilard propôs a ele um acordo secreto de colaboração.

Assim, em fevereiro de 1939, quando a equipe do Collège de France estava trabalhando em seus primeiros experimentos sobre a reação em cadeia, receberam uma carta de Leo Szilard. Essa carta alertava para a possibilidade da construção de bombas a partir de reações em cadeia

Quando o ‘paper’ de Hahn chegou a esse país uma noite atrás, alguns de nós ficaram interessados pela questão de que maneira os nêutrons são liberados na desintegração do urânio. Obviamente, se mais de um nêutron for liberado, uma espécie de reação em cadeia pode ser possível. Em certas circunstância isso pode então levar à construção de bombas, que seriam extremamente perigosas em geral e particularmente nas mãos de determinados governos.

Não é, naturalmente, possível proibir os físicos de discutir essas coisas entre si e, de fato, esse assunto é amplamente discutido aqui. No entanto, levando em conta isso, cada pessoa deveria exercer uma discrição suficiente para impedir que essas ideias vazem para os jornais. Nos últimos dias, discutiu-se aqui, entre os físicos, que nós devemos agir segundo essa linha, para impedir que houvesse publicações sobre isso nos periódicos científicos aqui, e também falar com os colegas da França e da Inglaterra para agir na mesma direção. Não se chegou a uma definição conclusiva, mas te informarei quando passos definitivos forem tomados, para te dizer o que está sendo feito.

Todos nós desejamos que não ocorra liberação de nêutrons, ou, ao menos, que ela não será suficiente, de modo que não haveria motivo para preocupação. Ainda assim, para termos segurança, esforços estão sendo feitos para esclarecermos esse ponto o mais rápido possível. Experimentos estão sendo conduzidos na Universidade de Columbia por Fermi e talvez sejam os primeiros a dar resultados confiáveis.

Talvez você tenha pensado nas mesmas coisas e contemplado os mesmos experimentos. Talvez você seja capaz de obter resultados definitivos em uma data anterior, que, naturalmente, serão muito valiosos para extinguir a atual incerteza inquietante. Qualquer informação sobre o assunto que você possa tentar transmitir por carta ou telegrama em uma data posterior será muitíssimo apreciada. Também se você chegar à conclusão de que a publicação de certas matérias deve ser proibida, sua opinião vai certamente receber seriíssima consideração nesse país.

                                                                                              Leo Szilard

O grupo de Joliot não desejava interromper a publicação de seus trabalhos, de modo que a colaboração sigilosa proposta não pode se implementar imediatamente. No entanto, com o início da Guerra, os americanos e ingleses entraram em acordo sobre o sigilo a respeito de diversos temas de pesquisa, notadamente relacionados ao urânio. Os cientistas americanos criaram um comitê de censura sobre a pesquisa de urânio, comitê esse chefiado por Gregory Breit. Helge Kragh chega a dizer que é notável que os físicos tivessem concordado com medida tão drástica e que o fizeram em parte voluntariamente, sem pressão dos governos, e que tenham conseguido que a pesquisa ocidental sobre urânio permanecesse secreta para os alemães e mesmo para os cientistas russos. Um dos últimos artigos que apareceram no Physical Review sobre urânio foi o de Edwin Mcmillan e Abelson, sobre a descoberta do elemento radioativo 93, Neptunium, artigo publicado em 1940. Quando outro elemento transurânico foi descoberto, em 1941, pelo grupo de Berkeley, comandado por Glenn Cyborg, o plutônio, a censura já estava efetiva. A descoberta só se tornou pública em 1946, com a concessão do prêmio Nobel a Cyborg – o artigo fora recebido em 1941, mas sua submissão foi suspensa até o final da guerra.

Os estudos para produção da bomba ocorreram primeiramente na Inglaterra e isso primeiro foi feito pelos alemães exilados Otto Frisch e Rudolf Peierls. Eles fizeram um estudo rápida da construção e operação de uma super-bomba de urânio 235, estimando a quantidade de material necessário para a produção de um artefato equivalente a milhares de toneladas de dinamite. Os dois cientistas enviaram um memorando ao governo britânico tratando desses aspectos éticos, políticos e militares da superbomba, de que eles temiam que os alemães já estivessem em desenvolvimento. A partir disso foi criado um Comitê, denominado Maud[1], para a criação da superbomba, do qual fizeram parte, além de diversos físicos ingleses importantes, refugiados como Frisch e Peierls. O Comitê concluir que era possível construir uma bomba atômica, mas, para tanto, era necessário uma organização muito maior. Ainda não havia cooperação com os Estados Unidos, mas um espião russo denominado Klaus Fuchs transmitiu aos soviéticos os segredos da produção da arma. De tudo o que foi descrito podemos concluir que esse processo de desenvolvimento tecnológico de base militar transcendeu os limites das culturas e das instituições científicas nacionais, envolvendo conhecimentos produzidos inicialmente na França, nos quadros do Collège de France, mas irradiados para outros países, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, e com a participação de cientistas de diversas nacionalidades, como da Itália, da Europa Central e da Europa Oriental. Sem esta vasta rede internacional, o projeto nuclear americano não teria obtido êxito. É claro que, com o esforço de guerra, esse projeto transformou-se no que se chama habitualmente de Big Science, isto é, um aparato de pesquisa em grande escala, associado também ao controle militar do empreendimento.


[1] O nome MAUD vem de uma referência enigmática de uma carta do físico Niels Bohr a sua governanta.