AS TELAS DE ARPAD E VIEIRA –
“os sábios que revolucionaram a agricultura”

A coleção de história das ciências da
Universidade Rural do Rio de Janeiro

Quando da administração Heitor Grillo, sua esposa Cecília Meirelles convidou Vieira da Silva e Arpad Szenes seu marido para trabalharem na Universidade Rural que iria se inaugurar. Foram feitos quinze quadros dos sábios que revolucionaram a agricultura. Entre os retratados estavam Aristóteles, Lavoisier, Cuvier, Pasteur, Darwin, respectivamente fundadores de disciplinas científicas como a história natural, a química, a anatomia comparada, a microbiologia e a teoria da evolução. A estes se somaram cientistas europeus que tiveram importante papel na história da ciência e da técnica no Brasil como Saint-Hillaire, Martius, Fritz Muller, Van Hart, além do Prof. Prado.

Ilustração do prof. Prado feita por Arpad
Valor das telas de Arpad e Vieira

Vieira da Silva colaborou com Arpad na criação da série. Sabe-se que suas telas estão entre as mais caras do mercado internacional de arte. Antes dela apenas cinco outras artistas tem preços mais altos. Eis aqui uma reprodução de uma tela vendida por Sotheby’s cujo preço alcançou cerca de USD$475.000

Em busca dos quadros perdidos…

Recebi da fundação Arpad – Vieira fotos dos esboços e dos quadros elaborados para a Universidade Rural.
O quadro do professor Prado permanece na Universidade Rural

Para o retrato do professor Prado Arpad fez em primeiro lugar a face e depois o conjunto da composição.

Ele é um dos que permanece na Universidade Rural.
O quadro do Professor Prado foi objeto de uma laboriosa preparação – desenhos para o rosto e para o tronco já com os gestos de quem lê diante do laboratório e observa simultaneamente sua mesa de trabalho onde alguns instrumentos estão dispostos.

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Aristóteles
O retrato de Aristóteles teve outro destino. Como os outros doze desapareceu. Em 1972 não constava mais no registro do patrimônio da Universidade. Ainda que depoimentos individuais disessem lembrar-se lá terem visto os quadros, por esta época.
Aristóteles o Estagirita, a quem Dante chamou o príncipe dos que sabem: filósofo, cientista ,teórico da cosmologia e da física antiga, autor de uma metafísica, de uma lógica, retórica e de uma poética, de uma meteorologia, de uma história natural, saber enciclopédico. É representado por Arpad tendo como pano de fundo uma colunata. O mais influente pensador do mundo antigo e medieval. Uma tela de grande valor artístico sobre o autor da Poética data do século XVII em que Aristóteles foi representado por Rembrandt contemplando o busto de Homero. Há no Museu do Louvre um busto do filosofo que provavelmente inspirou a representação de Arpad.

Lavoisier – criador da moderna Química científica
Antoine Laurent Lavoisier nasceu em Paris em 1743, durante o reinado de Luiz XV, o bem amado, e faleceu na mesma cidade em 1794, durante a revolução. Estudou no Collège des Quatres Nations, chamado Collège Mazarin. Tomou lições de química no Jardim du Roi e trabalhou num atlas geológico e mineralógico da França.
Ocupou-se de química, fisiologia, geologia, economia e de reformas sociais. Um cientista extremamente versátil Lavoisier notabilizou-se principalmente por seus trabalhos que produziram  uma revolução teórica na química  e deram a esta disciplina  estatuto científico. Lavoisier  foi em suma o fundador de uma nova ciência . Sua revolução teórica deu-se pela descoberta da função do oxigênio nas reações químicas. Morreu na guilhotina com 55 anos durante o Terror na revolução francesa.
Em 1764 escreveu um trabalho para a Academia de Ciências para melhorar a iluminação de Paris e recebeu uma medalha de ouro, embora não tenha sido eleito para a mesma, como desejava.
Em 1768 leu na mesma Academia um trabalho sobre hidrometria, descrevendo o projeto de um instrumento de imersão permanente  e um trabalho sobre análise da água que considerava o principal agente a moldar a terra.
Casou-se em 1771 com uma jovem de 14 anos.
Foi nomeado comissário real da administração da pólvora e foi morar no arsenal de Paris onde equipou um excelente laboratório.

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Foto do retrato de Lavoisier
Planejava trazer para Paris as águas do rio Yvette. Ligado a isso estudou o problema da transmutação, isto é, se a água, quando destilada, poderia ser transmutada em terra. Muitos acreditavam nisso, inclusive Van Helmont e Boyle. Lavoisier repetidamente destilou a água obtendo finalmente partículas de matéria sólida. O peso dessa partícula era equivalente à sílica perdida pelo recipiente do experimento. Lavoisier começou a especular sobre anatureza dos elementos e isto o levou aos primeiros passos de sua revolução na Química: a superação da Teoria do Flogístico reconhecendo que a atmosfera é composta de gases diferentes. Lavoisier demonstrou que o oxigênio é o elemento ativo da combustão e da calcinação.
Cuvier – criador da moderna Anatomia Comparada

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Estudo para o retrato

Foto do retrato de Cuvier,
retirado da coleção da Universidade
O barão de Cuvier foi o fundador da anatomia comparada e um dos teóricos que tornaram possível a teoria da evolução. Sua obra no terreno da história natural é uma das mais importantes do século XIX. Desempenhou também importante papel na história das ciências, com sua Histoire des sciences naturellles depuis leur origine jusqu’a nos jours chez tous les peuples connus, que ele ministrou no Colégio de França (editadas em 1845). A anatomia comparada de Cuvier distingue-se de maneira radical da taxinomia da idade clássica e se inscreve na idade moderna da biologia.

Como o diz admiravelmente M. Foucault as análises de Cuvier recompõem inteiramente o regime das continuidades e descontinuidades naturais. A anatomia comparada permite com efeito estabelecer, no mundo vivo, duas formas de continuidade perfeitamente distintas. A primeira concerne às grandes funções que se encontram na maior parte das espécies (a respiração, a digestão, a circulação, a reprodução, o movimento): ela estabelece em todo o vivente uma escala de complexidade decrescente que vai do homem até o zoófito. “Com Cuvier é toda a experiência clássica da diferença que muda e com ela a relação do ser e da natureza.”
Saint-Hilaire – descoberta e classificação da flora e fauna brasileira

AUGUSTIN François de Saint-Hilaire nasceu em Orleans, França, em 1779 e faleceu em la Turpiniere, em 1859. Estudou a flora e a fauna do Brasil durante seis anos quando viajava amplamente pelo território brasileiro. Retornou a Paris com 24.000 plantas, 2.000 pássaros, 16.000 insetos, 135 quadrúpedes, muitos répteis, peixes e insetos para classificar. Publicou “Flora Brasiliensis Meridionalis” (1825-1833) e outras obras sobre suas viagens inclusive vários diários. Auguste de Saint-Hilaire, o naturalista, veio para o Brasil depois da abertura dos portos e longamente herborizou no Brasil. Esteve em São Paulo, Minas Espírito Santo e Goiás.

Ao lado a foto do retrato

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Charles Darwin – uma teoria revolucionária na história da biologia
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Estudo para o retrato de Darwin

Foto do retrato de Darwin
Charles Robert Darwin nasceu em The Mount, Shrewsbury, Inglaterra, em 1909 e morreu em Downhouse, Down, Kant, Inglaterra, em 1882. Foi um grande naturalista, geólogo e o fundador de uma das grandes orientações teóricas da biologia: a teoria da evolução, que o imortalizou. Darwin era neto de Erasmos Darwin e estudou medicina na universidade de Edimburgo mas atender pacientes sem anestesia afastou-o da carreira. Dirigiu-se a Cambridge para entrar na igreja mas pensou que estava perdendo seu tempo.  Inspirado por John Stevens Henslow, que o fez interessar-se pela história natural, resolveu então juntar-se à expedição de pesquisa no Beagle, para uma viagem de estudos a volta do mundo. Quando do início da viagem não tinha formação científica estruturada. Retornou como um cientista que descobriu, inventou, fabricou uma nova teoria e produziu uma revolução na ciência, cujos efeitos se fizeram sentir na filosofia, na teologia, nas ideologias políticas, econômicas e na cultura. Tornou-se um paradigma do pensamento do século XIX.

A teoria formal da evolução, pela seleção natural, pode ser fomulada como se segue:

1. O número de indivíduos nas espécies permanece mais ou menos constante;
2. Há uma enorme produção de pólen, sementes, ovos e larvas;
3. No entanto existe uma alta mortalidade;
4. Os indivíduos nas espécies diferem inumeravelmente em aspectos anatômicos, fisiológicos e comportamentais;
5. Alguns são melhor adaptados aos nichos ecológicos de que dispõem, irão sobreviver mais frequentemente e deixarão maior número de descendentes;
6. A semelhança hereditária entre pais e descendentes é um fato;
7. No entanto gerações sucessivas manterão e melhorarão seu grau de adaptação e na medida que o ambiente varie gerações sucessivas vão diferir de seus pais e também de cada um, dando lugar a diferentes estoques a partir de ancestrais comuns.

Darwin expôs essa teoria no livro que publicou em 1859, depois de tê-la esboçado em um texto em 1842 e a ter expandido num ensaio em 1844. Chamou a sua obra de “On the Origen of Species by Means of Natural Selection or The Preservation of Favored Races in the Struggle for Life”.
Pasteur – fundador da microbiologia
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Estudo para o retrato de Pasteur

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Foto do retrato de Pasteur
Pasteur é um dos sábios comentados por Vieira da Silva em sua correspondência com Carlos Scliar. Sobre o fundador da microbiologia ela fala das dificuldades na elaboração da tela por causa de um derrame sofrido pelo sábio.

Charles Frederick Hart – geólogo e geógrafo
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Estudo para o retrato

Foto do retrato de Charles F. Hart
Charles Frederick Hart (1840-1878) autor de uma geologia e geografia do Brasil (1870) transferiu-se para o Rio de Janeiro depois de sua experiência no nosso país desde 1865, onde participou da comissão geológica do Império.

Barbosa Rodrigues – biólogo
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Estudo para o retrato de Barbosa Rodrigues
Vieira descreve sem identificar alguns dos naturalistas. Ela marca somente um traço comum, a barba, e que são menos interessantes. À época da entrevista a Scliar, 1986, esquecera portanto o nome dos cientistas que pintou.

Kulmann – lecionou na Universidade Rural
De origem alemã, ensinou na Universidade Rural. Assim como o do Preofessor Prado seu retrato escapou do “seqüestro das pinturas” e  ainda permanece na Universidade Rural. Vieira diz em sua entrevista a Carlos Scliar que os quadros foram colocados nas salas de aula:”É possível que algum professor daquela época tenha dito: Eu preciso tanto deles, tudo isso pode acontecer. Ou então, algum marchand ou ferro velho que diante deles dissesse: Isso é bom se eu tivesse meia dúzia de patacos. “Vieira figura estas hipóteses para dizer que não aceita a afirmação feita por um alto dirigente da Universidade de que “os retratos foram comidos pelos cupins”. Diz:”nisso eu não acredito. Eu penso que eles foram roubados ou vendidos”.

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Foto do retrato do prof. Kulmann

Friedrich Muller – biólogo
Fritz Johann Friedrich Theodor Muller nasceu em Windischholzahausen, Turinguia, Alemanha, em 1822 e faleceu no Brasil em 1897. Muller recebeu seu PHD pela universidade de Berlim em 1820. Completou seus estudos médicos na universidade de Greifswald em 1849 mas não recebeu o certificado por causa de suas idéias de livre pensador. Veio para o Brasil em 1852 onde realizou a parte mais importante de sua obra científica. É considerado como o maior e mais original dos naturalistas do século XIX. Seu livro “Fur Darwin” foi uma aporte fundamental para a biologia evolucionista num momento crítico de seu desenvolvimento – ficou conhecido como mimetismo mulleriano assim chamado na literatura científica quando duas espécies distantes, e não relacionadas se assemelham. Mantinha correspondência com Darwin que patrocinou a edição inglesa do livro de Muller, publicada em 1869 como “Facts and Arguments for Darwin”. Darwin o chamou de príncipe dos observadores.

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Foto do retrato de Fritz Muller.

Gregor Mendel – fundador da genética

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Estudo para o retrato de Gregor Mendel,
por Arpad
M endel nasceu em Heinzendorf, no antigo império autríaco em 1822 e morreu em Brno, na antiga Tchecoslováquia, agora . República x. Em 1840 entrou na Universidade de Olmutz. Entrou para o monastério augustiniano em 1843. Nos cursos de F. Diebl que frequentou no Insittuto Filosófico enquanto fazia também seus curso de Teologia, tomou contanto com a tese de que a polinizaçãso artificial era o melhor método de aperfeiçoamento das plantas.
Mendel estudou na Universidade de Viena onde frequentou os cursos de Doppler ede construção de instrumentos para a física  experimental de Ettinghausen.
O trabalho de Mendel sobre hibridização das plantas foi o resultado de dez anos de repetidos experimentos. Entre 1858 e 1863 Mendel testou e cultivou pelo menos 28000 plantas cuidadosamente estudando sete pares  de seed e características das plantas.
Criar um simbolismo que introduzisse na teoria biológica da reprodução um sistema de letras, uma algebra, como a existente para outras ciências da natureza como a física por Galileu e a química por Lavoisier foi fundamental.
Mendel fez entrar na esfera da matematização os resultados experimentais que obtivera com populações de pantas. Seu trabalho foi publicado no Versuche Uber  Pflanzenhybriden (1866). Sua obra magna foi um dos mais importantes textos da história da biologia.
Depois de 1881 ele começou   estudos de hibridização  com abelhas para estender a aplicação de suas descobertas as espécies animais.

A vida de Vieira e Arpad

Esta foto de Vieira da Silva é de sua viagem a Bahia.

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Esta é uma das telas em que Arpad retrata Vieira trabalhando, realizada no Rio de Janeiro.
A pintora esta diante da tela trabalhando um tema que desconhecemos. Na sala estão elementos do trabalho do artista. Da representação pictórica vemos o pintor, a tela, os pincéis, mas não vemos nem o artista que pinta a tela e que se encontra invísivel para nós, como que numa intenção deliberada de não aparecer e marcando que o centro do quadro é a pintora Vieira no ato de pintar já em pleno trabalho em que o pincel toca a tela.

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Vieira e Paris
Diz Vieira que foi para Paris “por razões intelectuais, fora de toda razão prática” . E lisboa evoca para ela a dimensão internacional da experiencia portuguesa, a das descobertas De Lisboa , diz ela “partia-se outrora para descobrir o mundo e povoá-lo em seguida. Em Paris  , diz ela a descoberta do mundo se faz ali a cada instante. “Paris povoa o espaço com suas invençoes.”. Ela não teria   mais continuado a trabalhar em 1928 se não fosse para Paris em 1928

.O Rio de Janeiro como refúgio do nazismo

Vieira e Arpad permaneceram no Brasil por sete anos de 1940 a 1947. As grandes telas que realiza referem-se ao mundo de sua preocupação, ao teatro da guerra europeu, ao mundo em chamas.Arpad e Vieira se instalam no Rio, em julho de 1940, primeiro na Marquês de Abrantes no Flamengo, depois em Santa Teresa, não longe do Corcovado. Eles se   instalam no antigo hotel estilo 1900, perto das Paineiras, na Floresta da Tijuca.
Laços de amizade forte se estabelecem com Murilo Mendes e Cecília Meireles. Artistas jovens passam a frequentar o atelier intensamente: Martim Gonçalves, Rubem Navarro, Carlos Scliar.
A coleção da Rural começa a ser trabalhada em 1943, graças a encomenda de Heitor Grillo, diretor da Escola Nacional de Agronomia. Arpad ilustra a tradução de Rilke feita por Cecília Meireles: Canto do Amor e da Morte do Cornette Cristophe Rilke. Ilustra os livros de poemas de Murilo Mendes, Cecília Meirelles e Jorge de Lima. Faz o retrato para a Coleção Cantos do Mundo, da Editora Leitura, de numerosos escritores, clássicos da literatura mundial.
Juscelino Kubitschek, futuro construtor de Brasília, convida Arpad para uma estadia durante várias semanas em Belo Horizonte.Vieira gostou muito do Rio. Estranhou muito o clima, no entanto, achando que não lhe convinha o calor muito pesado – escreveu. Vieira vivia marcada pelos acontecimentos, pela guerra que tinha na Europa seu foco principal e “era lá que tinha minha cabeça” diz ela.
A vida em Santa Teresa
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Vieira falando de sua estada no Brasil diz que foi um período “muito angustiante para nós,  porquê sentíamos tudo muito frágil…foi uma época de tensão, aquela do Brasil”. Ela diz  do casal: “vivíamos como uma borboleta”.  Vieira e Arpad ao chegar ao Brasil moraram cerca de seis meses no hotel Londres, em Copacabana. “Em seguida fomos para a rua Marquês de Abrantes, 64”. Depois de uma viagem a Cambuquira, em Minas, o casal se instalou na pensão Internacional, próximo ao Silvestre, em Santa Teresa.  O emblema e o símbolo do bairro eram para ela “um bondezinho que passava constantemente e que nunca vinha cheio. E era baratinho”. Sobre o modo de vida na pensão diz que “era uma forma quase coletiva”.

O espaço na pintura na pintura de Vieira

Continuidade e descontinuidade na pintura

Outras obras de pintoras valorizadas como Vieira
Georgia O’Keeffe é uma das poucas pintoras tais como Vigée-Lebrun e Mary Cassat cujas telas alcançam preços superiores aos de Vieira da Silva.

A pintura ao lado, “A flor do deserto Jimson Weed” alcançou em leilão da Sotheby’s, realizado em NY,1987, a cifra de USD$ 990.000.