O POETA E A PINTORA
RIO 1951

Foi no Rio em 1951 que este poema foi composto para Maria Margarida lhe foi comunicado pelo telefone, meio pelo qual lhe dizia o autor – que lhe telefonava 4 ou cinco vezes por dia – ela se realizava.

É como que uma fuga poética dos temas e do estilo da pintura mas também um tributo a harpista, a pensadora . Vestida de oriental requintada pela paleta de Ismailovitch que a transportou a Renascença, a Bizâncio, a Pérsia, a China, colocou-a diante do espelho refletida, retratou-lhe o corpo envolto pelas transas, fez dela virgem, fe-la acompanhar pelo cristo Pantocrator, pintou-a como Nefertiti. Enfim Margarida metamorfoseou-se para o artista russo em várias mulheres . A vestimenta fe-la múltipla.

Nascida na Ilha terceira para o poeta ela é a “brasileira das ilhas”

Maria Margarida Soutelo nasceu em 1900 na ilha Terceira nos Açores. Veio para o Rio de Janeiro com 7 anos de idade. Começou a estudar pintura com Ismailovithch que viveu muito tempo em sua casa. Expos inumeras vezes no Salão Nacional de Belas Artes e no Salão Paulista de Belas Artes. Participou da feira brasileira internacional de Nova York em 1939 . Fez sua primeira exposição individual no Rio em 1942 passando a expor tambem no rio e em Belo Horizonte. Participou da comissão que escolheu num concurso a marca símbolo do Banco do Brasil.

MARIA MARGARIDA

É Maria Margarida
Pelas transas aureolada
Toca na sua paleta
Mas tem música pintada
Pois não tem harpa doirada
Por quem a muito a muito prometa
Ser por si mesmo levada
Por um caminho violeta
Para uma serra nevada?

É Maria Margarida!
Veio das ilhas guardada
Para um destino sem mar,
Vive a tocar e a pintar,
Para quem dentro passar,
Não para a rua pisada
Para quem se quer apressar,
E sabe de madrugada
Que ela só sabe sonhar!

É Maria Margarida
Tem nos olhos maravilhas
De quem sentindo a fundo,
Coisas do céu e das ilhas
Com os olhos como fintas
De sol em nítida linha?

São as filhas de Branquinha
Da Branquinha uma vizinha
De umas vizinhas florestas!

O Maria Margarida,
Pelas transas aureolada
Sei que tens muito saber
E dizes “não sei de nada”!

Ó brasileira das ilhas,
Que vive tão alheada
Longe das praias, sentada
Com as harpas e as cartilhas,
Com as telas e as mantilhas,
Com sua roupa bordada,
E as rendas tão rendilhadas
Por leques em que dedilhas
Melodias meditadas!
Numa casa disfarçada
Em casa irmã de outras casas,
Vendo pretinhas com asas.
Pretinhas com as sombrinhas
Da cor do sol e das brasas,
Pelas florestas vizinhas.

É Maria Margarida
Flor de um complexo jardim,
São teus quadros para mim
Como fugas musicais!
E os temas não tem jamais,
Que sejam velhos marfins
Sobre sedas orientais,
Limite do ser assim
Nem aqueles materiais
E ficam sendo por fim!

É Maria Margarida,
Uma artista bem amada,
Sempre que for entendida
E até não mesmo pensada,
Mas simplesmente julgada
Qual imagem refletida
Nalguma prata lavrada
Num espelho de saída,
Num sorriso de chegada
A uma indiana embaixada,
Uma varanda florida
Ou por um mestre fixada,
Na pintura celebrada,
Em que tem a pousada
Na longa transa caída.
Ou está descalçada – e calada
Por uma tela tecida
Em rede tão nacarada
Quando se viu travestida
Numa oriental requintada
Que afinal não é mantida
Mas apenas revelada
Pois no espírito crescida,
Fez-se irmã da transplantada,
Flor brasileira, provinda
Numa pátria desvendada
Pela viagem aguerrida
Justamente realizada
Por sua gente querida,
A sua gente passada!

É Maria Margarida, tão da terra
E tão alada, tão do mar e tão fugida
Ao mar da terra empedrada,
Que a cidade traz batida,
E ao dessa ilha deixada,
Mas procurando-o na lida
Que é uma dança dançada
Por dançarina vestida
São de uma espuma frisada
Classicamente franzida!

É Maria Margarida
Por longo manto abrigada
Sedoso manto envolvida

Textos de ANA LUCIA PESSOA

Literatura Infantil

1 OS SIRIS AZUIS

Fico olhando, reparando neles. São solenes os siris azuis. Carregam a nobreza azul lenta e poderosamente, garras ao ar.

– Que venham à minha presença os siris azuis caçadores, ordenou o rei azul siri.

E, ao chamado do rei azul siri, reúnem-se os siris azuis caçadores. Rendem-lhe homenagens de súditos. Ouvem-no atentos e obedientes, patas abaixadas, fazendo-lhe reverência em sinal de respeito.

Nesta manhã, escondido atrás do arvoredo que circunda o castelo, ` ouvi o rei azul siri dizer:

– Vocês percorrerão todo o manguezal e aguardarão, com a maré cheia, a chegada dos pescadores que, com suas linhas e tarrafas, estarão à espreita das sardinhas, dos robalos, das tainhas. Tenham calma e paciência, até que possam surpreender os peixes e camarões que tentarão se livrar das redes e dos anzóis. Estes, no esforço de escapar, estarão atordoados e enfraquecidos. Aí, é a horade atacá-los, de agarrá-los. Tragam-nos nas garras até o castelo. Aqui, repartiremos as presas por todos. Dos pequenos aos maiores, estaremos comendo o nosso maná, agradecidos aos mares e as marés.

E o rei azul siri disse mais:

– Ao chegarem próximo dos pescadores, enterrem-se na lama, porém não deixem a água turva, pois a água, assim, vai revelar a presença de vocês. Escondam-se , observem e esperem.

Assim que o rei azul siri se retirou, um sisiazul ainda adolescente, com a ousadia própria da idade, tomou a frente dos siris caçadores e, levantando as garras, gritou-lhes palavras de ordem:

– Vamos à luta, unidos venceremos!

E seguiram os siris azuis caçadores em direção ao manguezal, tendo o jovem siri azul a abrir o caminho.

Deu meio-dia, maré cheia, tarrafas, arrastões, linhas e anzóis em meio ao sol a pino, ao vento sul, ao marulhar das ondas e à ondulância da maré. Articulados como se estivessem de patas dadas, emergem da lama espessa e fria os siris azuis caçadores, surpreendendo os peixes e camarões que sonambulavam ilesos das armadilhas de pesca. Nada lhes escapa.

Entretanto, na confusão de garras, escamas, guelras e barbatanas, vi o jovem siri azul sem uma das patas, cambaleando na lama sem rumo, feito barco à deriva. Tentei ajudá-lo, mas ele, parecendo envergonhado, sumiu de vista, mergulhando na nuvem de poeira lamacenta que envolvia o lugar. Tive pena dele. Provavelmente, esquecendo-se dos conselhos do rei azul siri, não teve calma e paciência para esconder-se na lama com cuidado e esperar o momento em que os demais siris caçadores se lançaram juntos, atrás das presas.

Enfim, perder a pata não é definitivo para os siris. Em pouco tempo, no lugar da pata perdida, nascerá outra, restaurando o equilíbrio do corpo que uma luta afoita e descuidada mutilou.

Enquanto isso, no salão nobre onde reina o rei azul siri, todos aguardam. A expectativa cresce, quando ouvem o tropel se aproximando. São os siris azuis caçadores que chegam repletos de presas nas garras.

Nesse dia, lá onde ficam os siris azuis, foi uma verdadeira “SIRIFESTA” ! {para o jovem siri azul caçador, no entanto, tudo não passou de um “sirisusto”, do qual, por milagre da natureza dos siris, rapidamente se recuperou}.